A consciência dionisíaca, entendida como um retorno ao feminino, a fim de metaforizar e tornar imaginais aspectos projetados sobre o corpo e a matéria
Dionísio é o deus portador das emoções e ambivalências. Enquanto experiência arquetípica, o dionisíaco relaciona-se as paixões, aos instintos, às emoções humanas, portanto, é uma via privilegiada de acesso ao inconsciente. A consciência dionisíaca integra em si a dimensão reprimida pela cultura ocidental. Dionisio é a luz da psicología analítica de Jung.
A esfera arquetípica dionisíaca atravessa a realidade dos gregos. Sua imagem mitológica configura tanto o aspecto da iluminação racional do olimpiano Zeus, quanto o aspecto noturno e misterioso das sombras subterrâneas de Hades. Dionísio é a ponte entre luz e escuridão, o intermediário dos deuses olimpianos e dos deuses do subterrâneo. É por meio dele que adentramos os níveis mais profundos da psique. O conteúdo de sua imagem arquetípica contém em si mesmo a oposição consciência e inconsciente, possibilitando à imaginação conectar-se com aqueles complexos mais arcaicos do inconsciente coletivo. Nesse sentido, Dionísio insurge da oposição, dos paradoxos, sendo o deus fronteiriço das ambivalências. Já que se encontra em uma posição intermediária, Dionísio torna-se o deus da obscuridade e do mistério. Nas narrativas míticas, é representado com várias faces, por meio de diversas perspectivas, como se tivesse múltiplas personalidades ou complexos.
Nos relatos órficos e homéricos, Dionísio é apresentado como menino; já em Eurípedes, aparece como um jovem de aparência andrógina. Em alguns contos, surge como um menino delicado, com traços femininos; em outros, é o marido ou o homem mais velho. Em algumas narrativas, é equiparado ao pai dos deuses, Zeus; nos mitos órficos, aparece como seu filho fruto da união com Perséfone, passando a ser chamado de Zeus ctônico.
A união de Zeus, pai do Olimpo, com Perséfone, a rainha do mudo subterrâneo,indica que Dionísio é, uma unificação dos opostos, uma aproximação do mundo diurno de Zeus com o mundo noturno, invisível, das trevas e dos mortos, correspondente a Perséfone.Outra característica proeminente da figura mítica de Dionísio é sua relação com o feminino e as mulheres, aspecto reprimido e negligenciado pela cultura ocidental devido a uma distorcida e tendenciosa interpretação do mito dionisíaco. Seu vínculo com o feminino aponta para a ligação de Dionísio com os aspectos do corpo, das emoções e do próprio inconsciente. Conhecido omo Zeus das mulheres, das amas, das ninfas, da sua mãe Sêmele, ou seja: as mulheres estão presentes do início ao fim das narrativas dionisíacas.
Porém, para promover a consciência dionisíaca, precisamos, primeiro, aprofundar a compreensão da figura mítica do deus Dionísio e de como ele se apresenta nas narrativas mitológicas, a fim de compreender suas qualidades, o modo como foi representado pelo imaginário dos antigos, seus epítetos, as fantasias que alimentam o mito dionisíaco e as ritualísticas ligadas
ao deus, para, enfim, delinear as principais temáticas que configuram esse arquétipo.
o pai de Dionísio é Zeus e a mãe, Perséfone, a rainha do mundo dos mortos. Outro nome dado ao pai de Dionísio é Zeus ctônico, isto é, o Zeus do mundo das trevas. Zeus seduz Perséfone, sua própria filha, e em um ato sombrio e incestuoso torna-se pai do subterrâneo Dionísio, que também será conhecido como Zagreu, nome atribuído igualmente a Zeus. Dessa forma, Dionísio é filho de uma relação obscura, na qual o Pai dos olimpianos, o iluminado Zeus, desceu ao subterrâneo, fisgado pela sua dimensão sombria, instintiva, tornando-se Zeus ctônico. Dionísio também recebe o epíteto ctônico, o subterrâneo
Nos rituais de mistério dionisíacos, Dionísio é representado por uma máscara ricamente adornada que simboliza o aspecto velado, escondido e obscuro do deus. Dionísio é o deus que permanece velado aos olhos da consciência, deus das profundezas do ser, que reside no âmago da natureza, que possui a própria potência da vida correndo através de si mesmo e, por isso, opõe-se aos olhares solares da razão ordenada, assim como à qualquer perspectiva da consciência diurna. Em algumas imagens antigas, Dionísio aparece segurando o –jarro de vinho com grandes asas –, ocupando o lugar do deus do mundo do subterrâneo Hades. Dionísio também é conhecido como Senhor das Almas, o deus do subterrâneo, equiparando-se a Hades . Nas narrativas míticas, Dionísio é seduzido, capturado e desmembrado pelos Titãs. O desmembramento de seu corpo é uma imagem arquetípica de tragédia e também a metáfora central da loucura, da fragmentação e do desmembramento simbólicos da psique. Dionísio é o deus fragmentado, dividido, cindido. Tal como o inconsciente se apresenta a partir de uma cisão com a dimensão da consciência, Dionísio aparece como a própria manifestação do inconsciente enquanto dimensão fragmentada e irracional, em outras palavras, o dionisíaco corresponde às dimensões emocional e inconsciente Eurípedes, dramaturgo grego, apresenta imagens dionisíacas e espantosamente cruéis da deusa Agave desmembrando seu filho Penteu. O desmembramento dionisíaco também é simbolizado pela imagem das mênades que, nas montanhas, esquartejam animais e crianças, devorando sua carne. Acerca dos rituais dionisíacos podemos afirmar que aconteciam afastados da luz do mundo diurno que provinha da pólis grega. Tais rituais eram realizados nas montanhas e florestas, perto da natureza. Nesse sentido, para se aproximar da dimensão dionisíaca da alma, aquela dimensão profunda do inconsciente, foi necessário aos antigos afastar-se da cidade, da consciência e da razão, adentrando a escuridão e a profundeza das florestas, assim como adentrando o mundo subterrâneo das imagens do inconsciente a experiência que atravessa o iniciado nos rituais dionisíacos corresponderia a uma experiência caótica, irracional, onde o iniciado prova do aniquilamento de sua individualidade e de uma reintegração ao uno primordial, por meio do embate com as profundezas da própria natureza. Portanto, a imagem simbólica do ritual dionisíaco, que envolve devoramentos de animais e crianças, assim como sacrifícios, evoca aquela imagem mitológica do desmembramento do menino Dionísio. A intensa emocionalidade, os trágicos e dramáticos desfechos que perpassam a voracidade desses atos ritualísticos manifestam as paixões dionisíacas. Deve-se mencionar que, durante os rituais, os sujeitos envolvidos rasgavam a própria roupa como mais um sinal de que estavam sendo atravessados pela intensidade e profundidade das emoções dionisíacas. O mito de Dionísio também simboliza o devoramento e a integração da divindade. Nesse mesmo sentido, temos como exemplo a simbologia da Eucaristia onde se come o corpo de Deus, tratando-se aqui, mais uma vez, do desmembramento e da ingestão da divindade. Essa simbologia arcaica e profunda da psique é uma imagem originária que está presente na própria natureza da humanidade. Tanto o canibalismo, quanto a caça e os rituais sacrificiais são componentes da pré-história da humanidade, ou seja, dos complexos originários.Ao comentar sobre a figura de Dionísio em Homero(trad., 2013), López-Pedraza (2002) descreve Dionísio fugindo de Licurgo que, como os Titãs, abateu suas musas com a mesma brutalidade com a qualbuscava desmembrá-lo. Nesse momento da literatura homérica, apreendemos, mais uma vez, o aspecto feminino dionisíaco sendo perseguido, destruído, reprimido, negado, simbolizando a repressão do feminino, da emocionalidade e do corpo. Dionísio em fuga busca refúgio no mar, no mais profundo oceano, onde Tétis o acolhe em sua covardia. Diante da destruição do seu aspecto feminino, do desmembramento do seu corpo e da sua emocionalidade pelos Titãs, Dionísio busca refúgio no fundo do mar, na própria Grande Mãe, movendo-se regressivamente até o mais profundo inconsciente. Aterrorizado, Dionísio chora de medo e terror, suas lágrimas são mais um indício do envolvimento mitológico de Dionísio com a dimensão das emoções que, no mito, encontram-se reprimidas na profundeza oceânica do inconsciente afirma que o processo dionisíaco da vida, tem seu modo de iniciação nos mistérios dionisíacos –no embate do menino dionisíaco com o desmembramento titânico, sendo o próprio desmembramento uma condição necessária e o ritual de iniciação para um modo de vida dionisíaco. Trata-se, portanto, de um drama inevitável que tem seu lugar na tenra infância. O menino Dionísio sente o horror diante da eminência do despedaçamento pelos Titãs. Tal experiência terrível está relacionada à imagem arquetípica da infância traumática que se refere à história arquetípica de todo ser humano. Pode-se pensar que o desmembramento de Dionísio é condição sine qua non para a realização da consciência dionisíaca, por meio da ruptura com as atitudes do ego unilateral.
as iniciações dionisíacas ocorrem ao longo de toda uma vida, a fim de propiciar, constantemente, o movimento psíquico". Isto é, o próprio movimento da psique requer o trauma instaurado pelo dionisíaco, uma vez que a transformação de um estado psíquico em outro requer um trauma, uma separação ou abandono de um estado anterior para a criação de uma nova consciência. A iniciação dionisíaca começa na infância ou até mesmo antes, o nascimento talvez seja o primeiro desmembramento dionisíaco.Deve-se compreender que toda passagem de uma etapa a outra da vida –entre infância, puberdade, adolescência, juventude, maturidade e velhice –trata-se de uma iniciação que somente é possível devido à morte do antigo e uma abertura ao novo
Nesse sentido, cada momento da vida exige um abandono ou uma libertação de certas convenções estabelecidas na fase anterior, daqueles aspectos que não são mais significativos e que permanecem em estado de nigredo, entendido como uma imagem alquímica para um estado da alma de pretejamento, com operações escuras, chamadas na linguagem alquímica de mortificatio, putrefatio, calcinatio etc. Esse estado da alma corresponde ao estado de rigidez e literalismo da consciência, sendo um estado de depressão, vagaroso, repetitivo, difícil, confuso, constrangido, angustiado, pessimista, niilista, em resumo, um estado de fixação e unilateralidade da consciência .Dessa forma, a iniciação dionisíaca é um desmembramento de uma consciência rígida e unilateral, um processo que se repete para a movimentação da energia psíquica, em oposição à paralisação rígida e unilateral da consciência. A loucura dionisíaca pode ser fonte para a novas perspectivas e mundos, porém, ela não aponta para a criação de um mundo ordenado, mas sim, para
uma experiência vital, a partir da qual se produz um renascimento psíquico. Em outras palavras, a fonte criadora dionisíaca possibilita uma nova experiência vital e psicológica da realidade, o sujeito retorna a ela sempre que uma transformação da psique se torna necessária ).A experiência arquetípica dionisíaca opera a partir de um movimento que oscila entre identificações com o todo coletivo e a criação da individualidade. A vivência dionisíaca é uma experiência de entrada no todo coletivo e posterior saída, com a criação de uma nova consciência de si, de um renascimento psíquico e de um novo modo de identificação. Portanto, trata-se de um processo circular e contínuo de desmembramentos consecutivos, pela diluição no todo coletivo, e posteriores criações de novas identificações egóicas, em um processo eterno de morte e renascimento
Dionísio está ligado à raiz etimológica de paixão, patologia e emoção, e à dimensão emocional da psique. Para se pensar o lugar de importância que os afetos e as emoções têm na psique humana, é necessário relembrar que os complexos que constituem essa psique são “a imagem de uma determinada situação psíquica de forte carga emocional e, além disso, incompatível com as disposições ou atitude habitual da consciência
Nesse sentido, as emoções são elementos nucleares para se pensar a vida psicológica, sentimentos, ideias, ações e humores conscientes. As emoções são os átomos da vida psíquica, todas as ideias conscientes estão "associadas e agrupadas por meio de um afeto complexos, com efeito, constituem as verdadeiras unidades vivas da psique inconsciente, cuja existência e constituição só podemos deduzir através deles". Nesse sentido, o inconsciente apenas é possível, assim como é constituído, devido aos complexos afetivos. A constelação desses complexos com intensas cargas afetivas irrompe na consciência perturbando o estado psíquico. Os complexos afetam a memória, as intenções conscientes, gerando ações e pensamentos compulsivos. Sua carga afetiva opõe-se à atitude consciente, podendo causar dissociações de personalidade Dionísio é o portador das emoções, sendo assim, é o deus também das intensidades afetivas, possuindo o poder de enlouquecer os homens ou de libertá-los, podendo ser, como o complexo, a via regia de acesso ao inconsciente ou a causa de uma dissociação de personalidade. corresponde à natureza que enlouquece os humanos e, por outro lado, corresponde àquela atitude dionisíaca de libertação da insanidade. A duplicidade natural a Dionísio representa a polaridade da
psique, seu conflito entre opostos. Dessa forma, a natureza de Dionísio é a mesma natureza da dinâmica psicológica .A experiência dionisíaca presentifica emoções conflitivas e ambivalentes, em uma mistura de exaltação e repulsa, sagrado e horrível, pleno e impuro etc. Portanto, na própria natureza do dionisíaco há a presença de um conflito violento, patológico e ambivalente de emoções .Se pudéssemos atribuir um domínio a Dionísio, diríamos que este é a dimensão patológica do humano, a dimensão das paixões e das emoções. Dionísio é o mais psiquiátrico dos deuses, ele é abertura para a patologia da alma e porta para o inconsciente, através de sua dimensão fundamentalmente emocional inerente, de sua aproximação mitológica com os complexos mais arcaicos da psique. Por outro lado, as leituras psicológicas da modernidade afastam-se de uma leitura dionisíaca, pois, ao interpretar Dionísio de maneira intelectual, mais uma vez distanciam-se do aspecto emocional da psique. Dessa forma, a psicologia age apenas no sentido de reprimir Dionísio ou desmembrá-lo, tal como os Titãs, operacionalizando uma leitura sobre o dionisíaco, reprimindo-o, por uma perspectiva demasiadamente solar de uma consciência diurna, intelectual e racional. A psicoterapia então liga-se a tendências da psicologia moderna e da medicina na criação de suas teorias, tornando-se excessivamente conceitual e intelectualizada, corroborando o negativo abandono da dimensão emocional, buscando fazer prevalecer uma dinâmica intelectual sobre a realidade psicológica. A dimensão dionisíaca apenas pode ser compreendida a partir da experiência, da sensibilidade, do corpo, ademais, do aprofundamento na dimensão inconsciente e emocional.
a repressão do Dionísio emocional, aparece a repressão do corpo, assim como a repressão dos sentimentos, emoções, sensações, do próprio inconsciente e de tudo o que é denominado feminino. A psicologia moderna afasta-se do aspecto dionisíaco da psique. Esse distanciamento é também um afastamento das emoções e são elas que evocam Dionísio. Nesse sentido, a fim de pensarmos uma psicoterapia dionisíaca, devemos ter uma perspectiva sensível e emocional para alcançar as profundezas da alma. a cura é um atributo dionisíaco e que este somente pode ser alcançado quando acessamos o nível dionisíaco da psique, ou seja, quando atingimos aquela profundidade da psique que corresponde à dimensão dimensão das emoções. Somente uma abordagem psicológica que considera os aspectos dionisíacos emocionais, o corpo e a própria sensibilidade humana, seria capaz de operar a cura.
o dionisíaco simboliza a dimensão inconsciente do ser humano, aparecendo em primeiro lugar como aquela dimensão reprimida pelo homem coletivo que passou pelo processo civilizatório, por isso, o dionisíaco carrega consigo as qualidades do ser natural, instintivo e proeminentemente afetivo e emocional.
os ritos dionisíacos representam um modo de aproximação da vida inconsciente, um modo de experimentação e integração desses conteúdos inconscientes que são, em última instância, a parte obscura de nós mesmos, a nossa contraparte sombreada, que permanece desconhecida a nós mesmos. Ao mesmo tempo, o dionisíaco é a experiência responsável pelos processos simbólicos de morte e de renascimento da psique individual, possibilitando um processo contínuo de transmutação e transformação das imagens da vida. Nos ritos primitivos de renovação, os ancestrais representam um papel significativo. [...] A retro identificação com os ancestrais humanos e animais significa, no plano psicológico, uma integração do inconsciente, um verdadeiro banho de renovação na fonte da vida, onde se é novamente peixe, isto é, inconsciente, como no sono, na embriaguez e na morte; daí o sono da incubação, a consagração orgiástica dionisíaca e a morte ritualística na iniciação.
Os rituais misteriosos dionisíacos e toda a embriaguez que os envolve simbolizam, para o sujeito psicológico, uma dissolução de suas crenças, sentimentos, pensamentos, ideologias, dogmáticas religiosas ou filosóficas, hábitos, costumes, intenções, projetos. Tal dissolução da camada civilizatória ocorre a partir deum processo de incubação conhecido como sono.
incubador, simbolizando a dissolução na psique primordial, um retorno ao todo, ao uno primordial e ao caos indiferenciado. Dionísio é o deus do caos. Esse processo, simbolizado pelo desmembramento de Dionísio, e colocado em ato nos rituais de mistério dionisíacos, tem um caráter regressivo, mas, ao mesmo tempo, age como um prelúdio para uma nova significação do sujeito psicológico e do mundo, ou seja, o dionisíaco possibilita uma superação do antigo, uma renovação de valores pela aproximação da consciência e do inconsciente, isto é, de uma reconexão do homem com a vida instintual, com seus aspectos emocionais, interior um retorno ao dionisíaco, aos instintos, para se ter um encontro autêntico com o Self, ambos sendo estruturas primordiais da psique, constituídos por uma realidade interior própria e inconsciente, assim como irracionais aos olhos da consciência. Dessa forma, tanto a dimensão dionisíaca quanto o Self não podem ser compreendidos a partir da lógica, da razão humana, ou mesmo da religiosidade predominantemente cristã e apolínea, uma vez que estão para além do ego e possuem suas próprias leis, que devem ser compreendidas em si mesmas. A religiosidade cristã reprime as emoções quando as define como aspectos de uma mundanidade inferior aos céus. O cristianismo expulsa o dionisíaco do espaço sagrado, julgando-o como pecado, excesso, tentação; suas emoções é recriminado como a origem do mal, aquilo que precisa ser evitado, suprimido, reprimido, controlado, vigiado. Nesse contexto, Dionísio é equiparado ao Diabo cristão, portanto, o receptáculo de tudo aquilo que pode levar o homem a sofrer, a causa de todos os males: a força vital em si mesma é vista como negativa, os instintos são reprimidos junto com o impulso natural do homem para o viver .Nesse sentido, para Jung, a experiência dionisíaca apresenta um caráter oposto às ideias metafísicas supremas que separam o humano do divino. A separatio humano e divino aponta para o primeiro como o portador de um pathos, considerando o cerne de tudo aquilo que lhe torna mundano, imperfeito, pecador. Por outro lado, a divindade, enquanto entidade para além do mundo, é caracterizada por ser perfeita, imutável, eterna, osum mon bonum. Nesse contexto, a tarefa do homem é ser redimido pelo divino, alcançar aquelas ideias transcendentais, como peças faltantes de um quebra-cabeças prometido, que servem à criação de um homem perfeito, eterno, permanente, constante, virtuoso. Por outro lado, tal perfeição é inalcançável para o humano, uma vez que sua experiência sempre será perpassada pela dimensão da angústia, da imperfeição, da falta. Nesse sentido, a experiência dionisíaca é necessária para a reconstrução do humano no centro da realidade, a partir de uma reunificação do aspecto espiritual com o aspecto instintivo do homem. São os rituais de mistérios dionisíacos que possibilitam um modo de encontro do intelecto humano com as emoções, isto é, uma aproximação com aqueles impulsos instintivos inconscientes que fazem parte da existência humana, na medida em que esta é considerada em sua totalidade e integridade. O pathos humano, apesar de ser indesejado e banido pela dogmática religiosa cristã, é o único modo de aproximação do verdadeiro Self. Tendo em vista que a razão humana percebe o inconsciente como obscuro, sombrio, recôndito, profundo, então, o único modo de aproximação com essa dimensão da vida que permanece nas sombras se dá por meio da experiência dos mistérios dionisíacos. Jung afirma que nos rituais de mistério o homem busca a reconstrução do ser humano em sua integridade, sendo somente nesse solo sagrado do ritual, que haveria um espaço de germinação do homem, tornando possível a reconstrução de um homem integrado aos seus instintos, de onde surge um si-mesmo, representado pelo corpo diamantino. Os ritos dionisíacos abarcam em sua simbologia a ideia de incubação por meio da consagração orgiástica, que representa uma morte simbólica e ritualística para a renovação e renascimento, simbolizando uma re-identificação com o que há de mais ancestral na humanidade e, ao mesmo tempo, uma integração com o inconsciente, “um verdadeiro banho de renovação na fonte da vida”( Nesse processo de aproximação e reencontro com seus instintos, com o que constitui a natureza do ser, o homem passa por um processo de transformação, um processo de transmutação de crenças, ideias, pensamentos, perspectivas e visões de mundo. A experiência dionisíaca trata essencialmente de um momento de reconstrução do humano, processo simbolizado pela reconstituição do macaco no espaço sagrado o reconhecimento do humano em sua integralidade, onde espírito e instinto estão unificados. O homem integral (Self) é também representado pelo restabelecimento do antropoide, do ser humano como realidade arcaica um humano que se volta para sua própria história natural, para seus fundamentos instintivos e animais, em oposição com aquela atitude projetiva que costuma pensar sobre si-mesmo a partir de ideias e projeções. O dionisíaco é também simbolizado pela Lótus, ou a Terra, que, por sua vez, também representa o aspecto inconsciente e feminino, como emocionalidade e afetividade. Por estar ligado aos aspectos emocionais humano é, ao mesmo tempo, visto como tendo um caráter maléfico e duvidoso, de natureza ambivalente, visto pela ética cristã como o próprio pecado, o herético, profano e obscuro .Nesse sentido, o dionisíaco na perspectiva da psicologia clássica de Jung aponta para os instintos, o corpo, as emoções e afetos. O próprio inconsciente é constituído de afeto, o sentimento humano é a energia que preenche e mobiliza as imagens da psique. Dessa forma, o dionisíaco corresponde ao que há de mais fundamental no próprio tecido do inconsciente coletivo, o dionisíaco
corresponde à valência afetiva da libido e promove a dinâmica do inconsciente. O dionisíaco também é a porta de entrada para o inconsciente, seus rituais de mistério representam esse processo de aproximação do homem com seus aspectos inconscientes, sendo assim, o dionisíaco aponta para um momento de integração do homem com seu Self, uma vez que o dionisíaco constitui o afeto que perpassa o inconsciente, as emoções atravessam e criam as imagens da alma. Portanto, é Dionísio que torna possível o vislumbrar das profundezas da psique, é por sua sensibilidade que podemos apreender a realidade da alma humana em sua inteireza, não apenas a partir de ideias metafísicas. Isso significa que uma repressão do dionisíaco,, em última instância, das emoções, corresponde a uma repressão ou a uma recusa dos aspectos inconscientes da humanidade, de sua contraparte sombria. Por outro lado"por detrás dessas graciosas figuras, nem de longe se suspeita do mistério dionisíaco, do jogo dos sátiros com suas trágicas implicações, inclusive o estraçalhamento sangrento do deus feito animal". Devemos levar a sério o que o filósofo alemão disse a respeito do deus –e mais ainda: tudo o que lhe aconteceu. Sem dúvida alguma, no estágio preliminar de sua doença fatal, já previra que a lúgubre sorte de Zagreu lhe estava destinada . apesar de Dionísio ser a porta para o inconsciente mais profundo, ele também é abertura para a loucura humana. Em outras palavras, "Dionísio significa o abismo da diluição passional, onde toda a singularidade humana se dissolve na divindade da alma animalesca primordial. Trata-se de uma experiência ao mesmo tempo abençoada e terrível" .Nesse sentido, apesar de Dionísio ser o meio de aproximação da alma em seu estado de natureza, seu estado animalesco primitivo, ele, ao mesmo tempo, é uma experiência terrível de dissolução da singularidade e da individualidade humana, sendo também aquela força que pode desencadear horrores, destruição e aniquilamento, levando o homem à loucura.
Dionísio é o deus das mulheres, seu culto é uma prerrogativa feminina, ele está profundamente ligado ao feminino e, portanto, ao inconsciente, à terra, àsemoções, à sensibilidade e à matéria. Em um de seus epítetos, também aparece como homem e mulher em uma só pessoa, ou seja, andrógino. A figura andrógina de Dionísio significa também uma consciência andrógina que comporta em si as polaridades em oposição. A consciência dionisíaca implica a priori uma unificação dos opostos, possibilitando assim uma abertura para a polissemia e as diversas perspectivas de alma .Outro aspecto da consciência dionisíaca é sua profunda ligação com o natural, com o livre fluxo da libido e das fantasias da psique. Nesse sentido, a consciência dionisíaca opõe-se ao pensamento analítico, reducionista e mecanicista, opondo-se ainda ao excesso de divisões e de definições proposto por este .Deve-se dar a devida importância à semelhança da consciência dionisíaca com a consciência da criança. O deus natural Dionísio, também chamado de o indiviso, assim como a criança, não divide ou parcela a realidade, não opera nenhum tipo de dualismo ou cisão psíquica. A perspectiva da criança que perpassa a consciência dionisíaca possibilita uma visão do todo que se opõe a uma visão unilateral, reduzida ou parcial. A perspectiva dionisíaca procura apreender a experiência psicológica em sua totalidade, em sua própria realidade, sem distorções, cisões, divisões, reduções ou mascaramentos
A repressão da consciência dionisíaca ocorre por razões socioculturais. A cultura ocidental possui uma consciência racionalista e demasiadamente apolínea, incapaz de apreender em si as qualidades da imaginação e da alma, substituindo essa perspectiva almada por um diagnóstico científico-natural da psiquiatria, da sociologia e demais ciências .Dessa forma, a consciência ocidental não proporciona uma iniciação adequada em nossa sociedade da consciência dionisíaca. O modo de acesso à dimensão da emotividade, dos afetos e do próprio inconsciente, se dá apenas de maneira indireta, através de seus aspectos sombrios, "através de Wotan e do Diabo do cristianismo" Falta-nos, portanto, a própria consciência dionisíaca e a consciência da vida desse arquétipo, uma vez que "não resta nada além dos nomina laicos da psiquiatria e da sociologia comparada" devemos desaprender tudo o que já aprendemos sobre o dionisíaco com base em autores renascentistas e naquela visão ocidental que associa Dionísio à loucura, à destrutividade do deus Wotan, assim como ao Diabo cristão. Somente dessa forma principia-se em nós uma mudança de visada que abre espaço para a perspectiva que olha através dos eventos e reconhece seu fluxo vital. A consciência dionisíaca torna os eventos almados. Dionísio também é representado pela força vital da própria natureza viva Zoe. A consciência dionisíaca, aliada à força vital de Zoe, aponta para uma abertura desse estilo de consciência às ambivalências, às polaridades e às oposições presentes na própria natureza. Nesse sentido, o dionisíaco é uma força vital que comporta em si mesmo as polaridades e oposições da vida Dionísio provém da fonte vital onde se encontram os instintos, as emoções e impulsos e, por isso, é concebido a partir das polaridades, oposições e ambivalências presentes naquela dimensão. Por ser ligado à dimensão inconsciente, Dionísio opõe-se frontalmente aos outros deuses olimpianos que estão mais próximos dos aspectos da inteligência e da razão, opondo-se também a qualquer tentativa de classificação ou explicação dos conteúdos psíquicos. Pode-se notar que está intrínseco na própria natureza dionisíaca aquela divisão clássica ocidental entre emoção e razão, na qual Dionísio aparece inferiorizado como não-inteligente, inconsciente, desordenado, irracional etc. .Desconsidera-se que, na realidade, o dionisíaco é um estilo de consciência que se aproxima da dimensão humana do inconsciente e, com essa aproximação, supera o racionalismo da consciência ocidental e também a neurose da cultura. O dionisíaco dá espaço para aquele discurso que apreende o vivo, a vitalidade e, portanto, a experiência em seu fluxo natural. Nesse caso, a consciência dionisíaca supera o literalismo e a tendência da consciência ocidental à unilateralidade, uma vez que parte da perspectiva da própria alma, da perspectiva do inconsciente, em oposição ao discurso retórico e sem alma da consciência ocidental. A consciência dionisíaca utiliza-se da linguagem imaginal, da linguagem do próprio inconsciente, transportando a personalidade do reino da consciência para o reino imaginal do como se, abrindo uma perspectiva politeísta da psique. É apenas por meio dessa reabertura ao inconsciente, que se dá através da consciência dionisíaca, que é possível uma reação à consciência neurótica ocidental, uma superação da unilateralidade aprisionada em um racionalismo conceitual e uma reaproximação com a perspectiva metafórica da psique Ora, a consciência dionisíaca apreende aquelas qualidades entendidas até agora como pertencentes apenas ao corpo, a fim de torná-las psicológicas novamente. A consciência dionisíaca é consequência de um processo de assimilação desses aspectos negados do feminino, tornando possível uma superação daquela perspectiva monológica, unilateral, racionalista, literalista, nominalista e neurótica da consciência ocidental. A consciência dionisíaca integra em si mesma a dimensão da racionalidade e das emoções, adentrando uma abordagem não-dualista e unificadora dos opostos consciente e inconsciente, reinserindo na existência a dimensão das emoções, sensações e sentimentos, tornando novamente o mundo almado.A fim de almar novamente o mundo, a consciência dionisíaca transporta-nos ao reino do imaginal, onde somos convidados a ultrapassar aquela visão de mundo pautada em uma representação objetiva e concreta da realidade. Em outras palavras, a consciência dionisíaca em seu caráter metafórico possibilita uma reaproximação da alma com a matéria, uma vez que sua linguagem imaginal reimagina a perspectiva literal do mundo concreto, compreendendo que a própria matéria é fantasia, tornando a experiência sensível a lmada. A intenção da consciência dionisíaca é almar novamente a matéria, extrair dela aquilo que já está ali presente, seu sentido profundo que aguarda para ser desvelado. A consciência dionisíaca torna o mundo um vale de fazer alma
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