Psicologicamente podemos afirmar que o primeiro estágio sombrio desta jornada, empreendida com o propósito de libertar a alma presa na matéria densa, sempre desemboca no sofrimento e morte do ego, que se encontra inflexível e enclausurado em velhas convicções e atitudes que já não servem mais a qualquer propósito a não ser o de promover o estancamento da vida e da espontaneidade. para tirar alguém da zona ilusória de conforto, do torpor, da complacência consigo mesma e da repetição de comportamentos ultrapassados e nocivos, era quase sempre necessário um grande choque de realidade, que quase sempre se manifesta sob a tutela de uma das categorias classificadas sob a denominação de “mortificatio”. Neste momento sombrio do processo não sabemos mais quem somos, nem temos o menor vislumbre do que seremos se persistirmos na busca da meta. Vivemos o que São João da Cruz chamou de “noite escura da alma”. A vida “normal” vai seguindo seu curso e é como se não estivéssemos dentro dela. É como se fossemos os espectadores passivos e enlutados assistindo uma peça em que somos os protagonistas, sabendo que nada do que façamos nos tirará do atoleiro de tristeza e que dependemos de uma força maior que nós para escapar do labirinto. É a hora em que assinamos uma declaração de impotência, inferioridade e derrota, em que, ainda vivos, descemos a mansão dos mortos. Perdemos nossa energia porque nos defrontamos com a absoluta necessidade de matar nossa velha personalidade para onde fluíam e se concentravam essas energias. Momentaneamente não temos para onde direcioná-las porque estamos privados de desejo e tudo ao nosso redor perdeu vitalidade e importância. Muitos se perdem nesta passagem difícil, mas aqueles que conseguem suportar suas dores, sua inadequação e falta de propósito sentem que, pouco a pouco, as energias, antes direcionadas para as conquistas no mundo concreto, fluem como um caudal para as regiões desconhecidas e inóspitas de seus mundos interiores. E é este o momento em que começa a se realizar o encontro amoroso entre o consciente e o inconsciente, cuja meta final é a concepção e nascimento do “Filho dos Filósofos”, outro dos muitos nomes da Pedra Filosofal. Mas primeiro é preciso sofrer o trespasse da morte porque é através dela que passamos a prestar atenção ao inconsciente. “Prestar atenção ao inconsciente significa tornar a vida miserável de maneira deliberada, a fim de criar condições para que a alma funcione com maior liberdade. Nada tem a ver com o masoquismo, afigurando-se antes como uma participação consciente no processo de atualização da Divindade. ‘O sofrimento é por si só uma preparação suficiente para que Deus habite o coração do homem … Deus está sempre com o homem que sofre; como Ele mesmo declarou pela boca do profeta: ‘Aquele que estiver coberto de tristeza, me terá consigo.’ Mas viver a morte e as trevas na superfície significa pela lei dos contrários adubar a vida e a luz nos recessos profundos da alma. É preciso suportarmos a dor para termos um vislumbre da totalidade, que será incorporada em nossa vida na última etapa da obra chamada Rubedo. Percebemos, porém, que o ambiente em que vivemos não somente não colabora, como é propício para escorraçar toda tentativa de viver plenamente uma ‘mortificatio’. A alquimia representa a projeção de um drama ao mesmo tempo cósmico e espiritual em termos de laboratório. A opus magnun tem duas finalidades: o resgate da alma humana e a salvação do cosmos... Esse trabalho é difícil e repleto de obstáculos; a opus alquímica é perigosa. Logo no começo, encontramos o "dragâo", o espirito ctônico, o "diabo" ou, como os alquimistas o chamavam, o "negrume", a nigredo, e esse encontro produz sofrimento... Na linguagem dos alquimistas, a matéria sofre até a nigredo desaparecer, quando a aurora será anunciada pela cauda do paväo (cauda pavonis) e um novo dia nascerá, albedo. Mas nesse estado de "brancura", nao se vive, na verdadeira acepçáo da palavra; é uma espécie de estado ideal, abstrato. Para insuflar-Ihe vida, deve ter "sangue", deve possuir aquilo a que os alquimistas denominam a rubedo, a "vermelhidâo" da vida. Esta experiência total da vida pode transformar esse estado ideal de albedo num modo de existência plenamente humano. o sangue pode reanimar o glorioso estado de consciência em que o derradeiro vestigio de negrume é dissolvido, em que o diabo deixa de ter existência autónoma e se junta à profunda unidade da psique. Entao, a opus magnum está concluida: a alma humana está completamente integrada. Segundo essa passagem, a opus alquímica tem tres estágios: nigredo, albedo e rubedo: o escurecimento, o branqueamento e o avermelhamento. Os dois termos, "mortificatio" e "putrefactio", são intercambiáveis, referindo-se a aspectos diferentes da mesma operaçäo. A mortificatio nao tem nenhuma referéncia química. Significa, literalmente, "matar", sendo pertinente, portanto, à experiência da morte. Tal como usada no ascetismo religioso, tem o sentido de "sujeiçáo das paixóes e apetites por meio de penitência, abstinência ou de dolorosos rigores infligidos ao corpo" Descrever um processo químido como mortificatio é uma projeção integral de urna imagem psicológica. isso de fato aconteceu. O material contido no frasco era personificado , sendo as operaçóes realizadas consideradas como tortura. Putrefactio é 'putrefaçäo' ' , a decomposiçäo que deriva de corpos orgánicos mortos. Da mesma maneira como a mortificatio, a putrefactio nao é algo que ocorra nas operaçóes da química inorgânica com a qual os alquimistas estavam ampIamente envolvidos. Contudo, testemunhar a putrefaçao de um corpo morto, em particular de um cadáver humano - algo pouco comum na ¡dade Média -, era uma experiência capaz de produzir um poderoso impacto psicológico. Os efeitos dessa experiência poderiam ser posteriormente projetados no processo alquímico . A mortificatio é a mais negativa operação da alquimia. Está vinculada ao negrurne, à denota, à tortura, à mutilaçáo, à morte e ao apodrecimento. Todavia, essas imagens sombrias com freqüência levam a imagens altamente positivas - crescimento, ressurreiçáo. renascimento; mas a marca registrada da mortificatio é a cor negra. Aquilo que nao se torna negro nâo torna branco, porque a negrura é começo da brancura, bem como um indicio de putrefaçäo e de alteraçâo, e de que o corpo agora se acha penetrado e mortificado. O feliz portal da negrura, exclama o sábio, que é a passagem para essa mudança tão gloriosa. todo aquele que se aplicar a essa Arte, com o objetivo exclusivo de conhecer seu segredo, porque conhecê-lo é conhecer tudo, mas ignorá-lo é a tudo ignorar. Porque a putrefação precede a geraçäo de toda forma nova de existência. A putrefaçâo tem tamanha eficácia que anula a velha natureza, transmuta todas as coisas nutri a nova natureza, e gera outro fruto novo. Todas as coisas vivas nela morem, todas as coisas mortas decaem, e depois todas essas coisas mortas recuperam a vida. A putrefaçào retira a acridez de todos os espíritos corrosivos do sal, tomando-os suaves e doces. Em termos psicológicos, o negrume refere-se à sombra., nossa propria sombra. No nivel arquetípico, também é desejável ter consciência da sombra. A negrura é o começo da brancura". De acordo com a lei dos opostos, uma intensa consciência de um dos lados constela sou contrário partir do negrume, nasce a luz. Em contraste com isso, os sonhos que enfatizam o negrume costumam ocorrer quando o ego consciente se mostra identificado de maneira unilateral com a luz. O negrume, quando nao é a condiçao original, tem como origem a morte de alguma coisa. Mais comumente, o dragáo é o escolhido para morrer 0 dragáo é "uma personificaçäo da psique instintiva", sendo um dos sinônimos da prima materia. Essa imagem vincula a opus alquímica ao mito do herói que mata o dragáo. Da mesma maneira como o herói resgata a donzeia cativa do dragäo, assim também o alquimista redime a anima mundi de sua prisäo na matéria por meio da mortificatio da prima materia. Ou, como diz Jung, "a morte do dragâo é a mortificatio do estágio inicial, perigoso e venenoso, da anima (= Mercúrio), liberta de sua prisäo na prima materia". é parte importante do processo psicoterapéutico. É bom que por vezes sejamos atingidos por sofrirnentos e adversidades, porque eles levam o hornem a contemplar a si próprio e a ver que está aqui mas corno se estivesse no exilio, bem como a aprender com isso que näo deve depositar sua confiança em nenhuma coisa da terra. E é born que por vezes soframos contrariedades , que as pessoas nos considerem maus, impios e pecadores, embora façamos o bern e tenhamos boas intençoes ; essas coisas nos ajudam a ter humildade e nos defendem vigorosamente da vanglória e do orgulho. Recorrernos melhor a Deus, corno nosso juiz e testernunha, quando somos desprezados exteriormente no mundo e quando o mundo näo nos julga bern. Por conseguinte, deve o hornem finnar-se em Deus de forma tao plena que, seja quai for a adversidade que sobre ele se abata, ele nao precise buscar nenhum conforto exterior. Um coraçäo puro, cristalino e constante nao se parte nem é facilmente vencido pelos labores espirituais, porque faz todas as coisas em homenagem a Deus, porque ele é claramente mortificado para si mesmo. Portanto, ele deseja livrar-se do seguimento de sua própria vontade. Que mais vos estorva se näo vossas próprias afeiçöes mortifificadas de modo incompleto à vontade do espirito? Em verdade, nada mais. retirado do livro Anatomia da psiqué de Eduard Edinger, pensamentos de Carl Jung
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